Assista as palestras de mestre Pop, e repense seus conceitos sobre a capoeira e os paradigmas construídos pelo determinismo e pragmatismo históricos!
segunda-feira, 13 de outubro de 2014
quarta-feira, 28 de maio de 2014
segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014
Edgar Morin: seu pensamento transdisciplinar e a educação planetária
A Escola Internacional Transdisciplinar Aú Capoeira,
cuja política pedagógica transgride a lógica tradicional da educação disciplinar no ensino
da capoeira, vem através deste artigo da professora Patrícia Limaverde
contribuir para uma reflexão mais profunda acerca da transdisciplinaridade como
uma perspectiva concreta de transformação no método educacional da capoeira
atual.
Mestre
Pop
Edgar
Morin: seu pensamento transdisciplinar e a educação planetária
Profa.
Patrícia Limaverde Nascimento
Nesta edição, vamos conhecer um pouco mais sobre
esse grande pensador da atualidade. Edgar Morin nasceu em 1921 em Paris. Teve
que trocar seu nome para livrar-se do nazismo, foi comunista e rechaçado pela
academia parisiense. Livre de fronteiras disciplinares, Edgar Morin pensa de forma
transgressora e complexa. Interliga conhecimentos de distintas áreas,
estabelecendo uma comunicação capaz de dotar de sentido o saber. Propõe a
interligação entre ciência, artes e tradição; entre sujeito, objeto e
conhecimento produzido; entre corpo, mente e sentimentos.
Questionando a separação dos conhecimentos em
disciplinas que não se comunicam entre si, argumenta que na escola tradicional
aprendemos a separar e analisar sem, contudo, aprendermos a relacionar e a
interligar. Seguimos nessa lógica da “separação” e da “distinção” encarando o
ser humano como sendo corpo, mente e sentimentos, partes disjuntas entre si,
ignorando que esses são três aspectos de um todo indivisível e complexo.
Em níveis mais amplos, continuamos a mesma lógica de
separação e disjunção. A discriminação social, a estratificação das pessoas em
camadas sociais ou em níveis sociais, ou ainda em castas. As guerras e a falta
de diálogo intercultural. A incapacidade de compreender as necessidades e os
pontos de vista do outro, de outra cultura, de outra comunidade.
Segundo Morin, nosso atual modelo de educação,
fundado sobre a lógica da disjunção, é incapaz de perceber as relações
existentes entre os conhecimentos, é incapaz de conceber e contemplar, em seu
currículo e sua didática, o ser humano como um todo indiviso.
Desta maneira, contribui para o distanciamento cada
vez mais crescente do ser humano para com os outros e para com a natureza. Sem
falar no desconhecimento do ser humano em relação a si próprio, os seus desejos
internos, suas necessidades, seus sentimentos, medos e anseios. Para Morin,
todo conhecimento é uma tradução e uma reconstrução. Não existe um conhecimento
absoluto, ao contrário, o conhecimento é sempre passível de erros e ilusões. A
idéia de que todos percebemos a mesma realidade é uma ilusão.
A partir da nossa percepção individual, traduzimos
os estímulos que recebemos do exterior e reconstruímos a realidade conforme
nossos próprios processos internos. Ou seja, o que achamos que é a realidade,
na verdade é uma interpretação particular, individual e só partilhada através
da linguagem.
A educação tradicional, portanto, adotou um único
modelo de realidade que é postulado nos livros didáticos que são perpetuados
geração a geração. Os professores são formados a partir de uma simplificação de
mundo onde eles acreditam que é possível simplificar a realidade para ser
melhor apreendida ou transmitida a seus alunos.
Este é um grande obstáculo o qual a educação
planetária, estruturada sob um Paradigma da Complexidade e não um paradigma da
simplificação, deve conseguir transpor.
Os conhecimentos que criamos na escola tradicional,
simplificados e simplificantes, passam a ser tratados quase como dogmas e esses
dogmas passam a “controlar” a escola, os currículos, didáticas e sistemas de
avaliação. Controlam o fazer do professor, a estrutura das salas de aula, os
corredores e pátios. Uma educação simplificadora e dogmática, disciplinar,
atrofia a aptidão de contextualizar os conhecimentos. Valoriza muito mais a
separação que a associação de idéias num todo significativo.
A educação planetária deve caminhar em direção às
associações, não só analisando a realidade, mas estabelecendo relações entre os
conhecimentos construídos. Relacionando não somente conteúdos disciplinares de
diferentes áreas, mas também indivíduo, sociedade e natureza; corpo, mente e
emoções. A identidade humana, o que nos torna humanos, o que nos une enquanto
seres humanos? Essa é uma questão que não pode ser ignorada pela educação
planetária.
Somos todos muito parecidos geneticamente. Enquanto
indivíduos de uma mesma espécie temos as mesmas necessidades. Ao mesmo tempo,
somos diversos, em cultura, em organização de sociedades, raças, línguas.Somos,
ainda, parte de uma natureza indivisível. Dependemos de interligações com
outros seres vivos, com seres não vivos, somos natureza.Essas são as três
dimensões do ser humano: enquanto individuo, enquanto espécie, enquanto ser
social.
O ser humano está ameaçado em todas as suas
dimensões. Esse pensamento simplificador da realidade fez com que, ao perdermos
a visão do todo e suas ligações, produzíssemos conhecimentos capazes de nos
distanciar cada vez mais da vida natural e social.Produzimos ameaças a nós
mesmos. Enquanto espécie estamos ameaçados constantemente por perigos de
guerra, de desastres nucleares, perigos causados pelo aquecimento global.
Enquanto ser social, estamos ameaçados por um
totalitarismo do capital, por uma economia que invade fronteiras e busca uma
homogeneização capaz de aniquilar culturas em prol da criação de consumidores
para alimentar o mercado.Enquanto individuo, o ser humano se perde de si mesmo,
ignora sua espiritualidade, seus anseios, seus desejos e medos. Ameaça a si
mesmo e cai, cada vez mais no abismo das doenças da modernidade: depressão,
ansiedade, obesidade, dentre outros transtornos severos.
Devemos, portanto, através de uma educação
planetária, nos proteger enquanto espécie, enquanto ser social e enquanto
indivíduos. A escola para uma educação planetária deve contemplar esses
aspectos em seus planos curriculares, na didática e atividades cotidianas, em
uma nova concepção espacial da escola.
Você, professor@, tem alguma idéia de como favorecer
esse processo de transformação? Em “Atividades Transdisciplinares” ofereço uma
proposta de “Teia Curricular: o cuidado com o Indivíduo, com o Meio Social e
com o Meio Natural”. Em “Vídeos sobre Edgar Morin” há uma coletânea dos
melhores vídeos sobre as principais idéias desse grande pensador. Em “Links
sobre Edgar Morin”, fiz uma lista de links interessantes para aprofundar a
discussão. Espero que possamos pensar e repensar a educação. Como Edgar Morin
fala “reformar o pensamento e repensar a educação”!Uma boa leitura a
tod@s!Profa. Patricia Limaverde Nascimento
segunda-feira, 18 de novembro de 2013
UMA VISÃO HOLÍSTICA DA CAPOEIRA
A
visão holística da educação é um novo modo de relação do ser humano com o
mundo; uma nova visão do cosmos, da natureza, da sociedade, do outro e de si
mesmo.
UMA
VISÃO HOLÍSTICA DA CAPOEIRA
Por:
Mestre Pop
Assim como na medicina holística não se separa os órgãos de
nosso corpo por compreender-se que o corpo é um conjunto, e este conjunto
interligado é que proporciona seu pleno funcionamento, onde tudo está
relacionado, tudo está integrado numa perfeita simbiose, deste modo também
devemos contemplar o universo, onde tudo está integrado e tudo faz parte de uma
mesma estrutura. A visão disciplinar do mundo tem contribuído para que os
homens não percebam que tudo é uma coisa só e que ao destruir um ambiente estão
destruindo outros ambientes, ou seja, ao destruírem uma forma de vida destroem
outras também.
A visão holística nos permite contemplar um quadro para além
do artista que o pintou, pois ao olharmos o quadro identificamos outros
artistas e autores de igual importância. Estes autores estão invisíveis para
aqueles que olham somente a pintura materializada na tela, enquanto que pelo
olhar holístico e transdisciplinar iremos ver aqueles que trabalharam na
confecção da própria tela, dos pinceis da tinta, a madeira da moldura.
Tudo o que há na natureza, seja o homem, um minúsculo inseto,
uma molécula, ou até mesmo as imensas galáxias, são considerados o Todo, em
relação às suas partes constituintes. Porém este Todo está permanentemente
interligado com outros Todos, embora interdependentes, mas que no obstante
formam uma totalidade.
A visão holística e transdisciplinar nos permite integrar
todas as partes para que o Todo exista. Portanto ao reconhecermos que cada
parte é uma parte de um todo vamos entender que nada está separado, ou seja,
nada se sustenta sozinho.
Em geral, nas culturas humanas a fragmentação é uma
realidade. Tudo está separado e compartimentado em universos distintos, seja no
campo das ciências como das religiões e como também da capoeira. Somos uma
unidade separada pelas visões, sentimentos e crenças que nos impulsionam a
caminhada. Temos dificuldades de compreender, que somos parte de um todo. Criamos fronteiras geopolíticas e econômicas,
as fronteiras das crenças que estimulam o egoísmo e o individualismo, assim
como as estruturas político-partidárias que se relacionam através do embate de
força pelo poder, impulsionado pelas concepções ideológicas que alimentam os
conflitos humanitários. Não vamos para lugar algum ao permanecermos em nossos
terrenos protegidos por nossas crenças e pela visão restrita que temos da
realidade. Pois contemplamos a realidade apenas com nossos olhos ignorando
outros olhares, outras percepções e outros saberes. Razão pela qual somos
sectários.
E assim como os inúmeros micro e macro-universos existentes,
também o universo da capoeira se constitui fragmentado em múltiplos universos e
por inúmeras visões. Estas visões de uma mesma realidade se constituem em um
imenso paradoxo, onde cada mestre tem seu próprio universo. A leitura da
realidade a partir de uma visão disciplinar e fechada impossibilita estes
mestres de verem que a capoeira em sua multiplicidade é parte de uma mesma
realidade de um só universo. E como juntar as partes que se encontram
separadas, pelos conceitos, ideologias e praticas? Através da educação holística e
transdiciplinar.
Assim como os homens da ciência devem repensar a ciência,
frente a destruição promovida pelo
desenvolvimento cientifico tecnológico; assim como a escola deve entender que
seu papel é de contribuir na formação do ser humano integral e não do homem
compartimentado; assim também devem os mestres de capoeira repensar seu papel
na transmissão do conhecimento principiando de que não existe uma só realidade
- que é a sua-, mas que o universo da capoeira é repleto de diversidade e que é
esta diversidade que constitui a existência dos próprios micro-universos da
capoeira. Tudo é parte de uma mesma realidade inicial, ou seja, todas as
capoeiras têm origem numa mesma matriz que se fragmentou pelas circunstancias
históricas, mas acima de tudo, pela criatividade humana. Portanto cabe-nos
unir através da real compreensão- o que
está separado sem inibir a importância de cada parte, pois cada parte é imprescindível
para formar este imenso patrimônio cultural chamado “Capoeira”. É na
pluralidade que reside a unidade e somente uma mente liberta é capaz de
compreender a diversidade sem preconceito, discriminação e acima de tudo sem
prepotência ou arrogância.
Olhar e conceber a capoeira de forma não pragmática é fruto
de uma visão holística de uma realidade, onde se nega o saber de uns para a
supremacia do saber de outro, sem entanto compreender que os antagonismos
muitas vezes se confundem e até mesmo se completam.
quarta-feira, 9 de outubro de 2013
ESCOLA TRANSDICIPLINAR AÚ CAPOEIRA
CARTA DA
TRANSDISCIPLINARIDADE
A presente Carta Transdisciplinar foi adotada pelos participantes do Primeiro Congresso Mundial de Transdisciplinaridade.
Preâmbulo
Preâmbulo
Considerando que a proliferação atual
das disciplinas acadêmicas conduz a um crescimento exponencial do saber que
torna impossível qualquer olhar global do ser humano;
Considerando que somente uma
inteligência que se dá conta da dimensão planetária dos conflitos atuais poderá
fazer frente à complexidade de nosso mundo e ao desafio contemporâneo de
autodestruição material e espiritual de nossa espécie;
Considerando que a vida está
fortemente ameaçada por uma tecnociência triunfante que obedece apenas à lógica
assustadora da eficácia pela eficácia; Considerando que a ruptura contemporânea
entre um saber cada vez mais acumulativo e um ser interior cada vez mais
empobrecido leva à ascensão de um novo obscurantismo, cujas conseqüências sobre
o plano individual e social são incalculáveis;
Considerando
que o
crescimento do saber, sem precedentes na história, aumenta a desigualdade entre
seus detentores e os que são desprovidos dele, engendrando assim desigualdades
crescentes no seio dos povos e entre as nações do planeta; Considerando
simultaneamente que todos os desafios enunciados possuem sua contrapartida de
esperança e que o crescimento extraordinário do saber pode conduzir a uma
mutação comparável à evolução dos hominídeos à espécie humana;
Considerando o que precede, os participantes
do Primeiro Congresso Mundial de Transdisciplinaridade (Convento de Arrábida,
Portugal 2 - 7 de novembro de 1994) adotaram o presente Protocolo entendido
como um conjunto de princípios fundamentais da comunidade de espíritos
transdisciplinares, constituindo um contrato moral que todo signatário deste
Protocolo faz consigo mesmo, sem qualquer pressão jurídica e institucional.
Artigos da
Carta Trasncisplinar
Artigo 1:
Qualquer tentativa de reduzir o ser humano a uma mera definição e
de dissolvê-lo nas estruturas formais, sejam elas quais forem, é incompatível
com a visão transdisciplinar.
Artigo 2:
O reconhecimento da existência de diferentes níveis de realidade,
regidos por lógicas diferentes é inerente à atitude transdisciplinar. Qualquer
tentativa de reduzir a realidade a um único nível regido por uma única lógica
não se situa no campo da transdisciplinaridade.
Artigo 3:
A transdisciplinaridade é complementar à aproximação disciplinar:
faz emergir da confrontação das disciplinas dados novos que as articulam entre
si; oferece-nos uma nova visão da natureza e da realidade. A
transdisciplinaridade não procura o domínio sobre as várias outras disciplinas,
mas a abertura de todas elas àquilo que as atravessa e as ultrapassa.
Artigo 4:
O ponto de sustentação da transdisciplinaridade reside na
unificação semântica e operativa das acepções através e além das disciplinas.
Ela pressupõe uma racionalidade aberta, mediante um novo olhar sobre a
relatividade das noções de “definição” e de “objetividade”. O formalismo
excessivo, a rigidez das definições e o absolutismo da objetividade,
comportando a exclusão do sujeito, levam ao empobrecimento.
Artigo 5:
A visão transdisciplinar é resolutamente aberta na medida em que
ela ultrapassa o campo das ciências exatas devido ao seu diálogo e sua
reconciliação não somente com as ciências humanas, mas também com a arte, a
literatura, a poesia e a experiência espiritual.
Artigo 6:
Com a relação à interdisciplinaridade e à multidisciplinaridade, a
transdisciplinaridade é multirreferencial e multidimensional. Embora levando em
conta os conceitos de tempo e de história, a transdisciplinaridade não exclui a
existência de um horizonte transhistórico.
Artigo 7:
A transdisciplinaridade não constitui nem uma nova religião, nem
uma nova filosofia, nem uma nova metafísica, nem uma ciência das ciências.
Artigo 8:
A dignidade do ser humano é também de ordem cósmica e planetária.
O surgimento do ser humano sobre a Terra é uma das etapas da história do
Universo. O reconhecimento da Terra como pátria é um dos imperativos da
transdisciplinaridade. Todo ser humano tem direito a uma nacionalidade, mas, a
título de habitante da Terra, ele é ao mesmo tempo um ser transnacional. O
reconhecimento pelo direito internacional de uma dupla cidadania – referente a
uma nação e a Terra - constitui um dos objetivos da pesquisa transdisciplinar.
Artigo 9:
A transdisciplinaridade conduz a uma atitude aberta em relação aos
mitos, às religiões e àqueles que os respeitam num espírito transdisciplinar.
Artigo 10:
Não existe um lugar cultural privilegiado de onde se possam julgar
as outras culturas.
A abordagem transdisciplinar é ela própria
transcultural.
Artigo 11:
Uma educação autêntica não pode privilegiar a abstração no
conhecimento. Deve ensinar a contextualizar,
concretizar e globalizar. A educação transdisciplinar reavalia o papel da
intuição, da imaginação, da sensibilidade e do corpo na transmissão dos
conhecimentos.
Artigo 12:
A elaboração de uma economia transdisciplinar esta baseada no
postulado de que a economia deve estar a serviço do ser humano e não o inverso.
Artigo 13:
A ética transdisciplinar recusa toda atitude que se negue ao
diálogo e à discussão, seja qual for sua origem - de ordem ideológica,
científica, religiosa, econômica, política ou filosófica. O saber compartilhado
deveria conduzir a uma compreensão compartilhada, baseada no respeito absoluto
das diferenças entre os seres, unida pela vida comum sobre uma única e mesma
Terra.
Artigo 14:
Rigor, abertura e tolerância são características fundamentais da
atitude e da visão transdisciplinar. O rigor na argumentação, que leva em conta
todos os dados, é a melhor barreira contra possíveis desvios. A abertura
comporta a aceitação do desconhecido, do inesperado e do imprevisível. A
tolerância é o reconhecimento do direito às idéias e verdades contrárias às
nossas.
Artigo
final:
A presente Carta Transdisciplinar foi adotada pelos participantes
do Primeiro Congresso Mundial de Transdisciplinaridade, que não reivindicam
nenhuma outra autoridade exceto a do seu próprio trabalho e da sua própria
atividade. Segundo os procedimentos que serão definidos de acordo com as mentes
transdisciplinares de todos os países, esta Carta esta aberta à assinatura de
qualquer ser humano interessada em promover nacional, internacional e
transnacionalmente às medidas progressivas para a aplicação destes artigos na
vida cotidiana. Convento de Arrábida, 6 d(Elaborada no Primeiro Congresso
Mundial da Transdisciplinaridade, Convento de Arrábida, Portugal, 2-6 novembro 1994 e novembro de 1994.
Comitê de
Redação
Lima de Freitas, Edgar Morin e Basarab Nicolescu
sábado, 28 de setembro de 2013
O REAL SENTIDO DO TERMO “MESTRE”
Por:
Mestre Pop
Vejamos o que diz o dicionário Aurélio sobre o
termo Mestre: 1.Homem que
ensina; professor; 2.Aquele que é perito ou versado numa ciência ou
arte...3.Homem superior e de muito saber: 4.Aquele que se avantaja em qualquer
coisa: Em criar confusões ele é mestre...11.Guia espiritual; mentor, 13.Aquele
que tem o mestrado (5)...21.Bras. Cap. Título concedido a capoeiristas mais
experientes, com notório saber e longa vivência na capoeira...23.Que é superior
a... 25. Que é o mais importante; que serve de base ou de guia; principal,
fundamental.
O sentido da palavra mestre.
Significa dizer que uma pessoa pode ser um mestre tanto no campo
material como no campo espiritual. No campo espiritual o mestre é um guia, alguém
capaz de elucidar, de polir, capacitar, dar rumo e sentido à existência àqueles
que os seguem como verdadeiros discípulos, com a dualidade da existência do
mestre da luz e das trevas. E no campo das ciências mestre é aquele individuo que
cumpriu um protocolo acadêmico, o individuo que realizou algumas experiências no
campo das ciências, que defendeu uma tese e que contribuiu de alguma maneira na
construção ou na reformulação de um terminado campo de conhecimento.
Como também existem os mestres práticos, indivíduos que acumularam notório
conhecimento e experiência em uma determinada atividade, como por exemplo, mestre
de arma, que é o individuo que domina o conhecimento sobre uma determinada arma,
que conhece a historia e que domina as técnicas de seu manuseio. Os mestres de
obra que são indivíduos que acumularam experiências através do tempo e que
dominam o conhecimento de construção de uma determinada obra, mestre de
embarcação, mestre da pesca, mestre tecelão, etc.
Na essência da nossa reflexão, o verdadeiro mestre é, portanto, aquele
que se tornou senhor de si, isto é, mestre de si mesmo. Alguém com o espírito
diferenciado e mais próximo da iluminação. Segundo Georges Gusdorf: “professores
há muitos; mestres, dignos deste nome são poucos”.
O mestre é. Porque a sua vida tem um sentido, ensina a possibilidade de
existir. Entende-se que os professores ensinam por palavras, e já com os mestres
aprendemos por ações e exemplos. No sentido filosófico do termo a existência do
mestre pode ser mensurada pela qualidade de obra e pelas atitudes de seus
discípulos. “O mestre e o discípulo não se descobrem como tais senão na relação
que os une (...) pode-se dizer que é o discípulo que faz o mestre, e o mestre
que faz o discípulo.” Gusdorf (1970:250). Portanto ser mestre é dar exemplo!
O
sentido de ser mestre no universo da capoeira
E no universo da capoeira
como se configura este termo? O que é necessário para ser um mestre de capoeira?
A capoeira é uma cultura de dimensão plural que se constitui em múltiplos campos
de saberes: música (cantos), ritmos (toques), fundamentos de jogo-luta, ancestralidade,
relações humanas, relação histórica e outros. Portanto para ser um mestre de
capoeira o individuo deve minimamente conhecer este conjunto de saberes que fazem
parte de seu universo, porém não basta dominar o campo da musica, do jogo ou ter
uma boa performance, alto desempenho enquanto lutador. É preciso muito mais. É
preciso ter vivência, maturidade e experiência. Ter sido lapidado através do
tempo, ter adquirido segurança e confiança em si mesmo. Acima de tudo, mestre
de capoeira deve ser aquele que dominou e venceu seu maior adversário: si mesmo.
Aquele que trocou a arrogância e a prepotência pela humildade e que reconhece
que enquanto viver vai continuar apreendendo.
Estamos vivendo o tempo
da promiscuidade e da vulgarização da palavra e do sentido de ser mestre! Hoje
é comum sujeitos que querem ganhar fama, notoriedade, prestigio e dinheiro com
a capoeira, se auto-intitularem mestres ou pagarem a outros para darem a eles
este titulo. Basta o sujeito dar uns saltos, saber fazer um joguinho, trocar
uma porradinha aqui e ali, tocar direitinho um berimbau, dar umas aulas, ter
uns aninhos de pratica, já se torna mestre... E às vezes nem isso!
Em
busca de hegemonia, força e poder
Na lógica de querer
expandir seus grupos, muitos mestres mais veteranos investiram pesado em marketing,
passaram a adotar alunos de outros mestres - muitos até via internet filiavam pessoas
que nunca sequer viram-, pois o objetivo era ganhar prestígio, fama e dinheiro
e ocupar espaços privilegiados. Assim, criaram um mercado cuja lógica era a
busca por hegemonia, força e poder, sendo
o objetivo estratégico a conquista de um mercado que se descortinava e ainda se
descortina, tanto nacional como internacionalmente. E para ver quem vendia
melhor sua imagem e produto passaram a adotar slogans e discursos políticos e
filosóficos radicais para afirmar qual era o melhor grupo, a melhor capoeira, o
melhor mestre. Os embates passaram a existir e ser travados tanto dentro das
rodas como também fora, gerando um verdadeiro campo de batalha, uma guerra que
manchou ainda mais a imagem da capoeira perante a sociedade, como se não
bastasse o processo histórico! Não estou generalizando, pois existem muitos
mestres e grupos com 30, 40 ou mais anos de existência, com pouquíssimos mestres
e outros grupos recém formados com um batalhão de mestres.
Aí eu pergunto: quem
banalizou este titulo, senão os próprios mestres? Infelizmente há muitos
mestres antigos que contribuíram e ainda contribuem para a banalização deste
titulo e não reconhecem sua parcela de responsabilidade. A banalização em minha
opinião se deu quando se instituiu as graduações como monitores, instrutores,
professores etc.
Ainda
sobre a hierarquia na capoeira
Voltando às graduações,
eu mesmo adotei duas graduações adultas e depois as infantis. Hoje reconheço
que foi meu maior erro, por mais que haja exigência para se ter uma graduação,
exames, testes etc., como sempre fiz, a conclusão que cheguei é que tudo isso só
contribuiu para a banalização e para a perda do sentido do que venha ser
realmente um mestre. Pois ao dar qualquer titulo você termina também dando poder
ao aluno! Por isso hoje em dia se vê os chamados instrutores com seu próprio grupo
de capoeira, e quantos? Muitos brigam com seu mestre ou professor e aí vão e montam
seu grupo! Continuando a reproduzir a mesma lógica, querendo ter também um
monte de alunos e também seus núcleos multiplicadores. E para verem como realmente
o sentido de ser mestre esvaziou-se, é que em muitos casos o indivíduo hoje é
mestre e amanhã deixar de ser, quando passa a ser aluno novamente de um grupo que
o adota. Ali ele vai passar a ser um aluno ou meio graduado. Eu mesmo já fiz
isso numa época que quis abraçar o mundo. Esta historia vai longe e quem é do
meio sabe do que estou falando. Na verdade o que vem acontecendo na capoeira
nestas ultimas décadas dá milhares de teses, livros e por aí afora.
Sei que muitos mestres
não irão discordar do que estou expondo, primeiramente não estou escrevendo para
agradar quem quer que seja, ou atacar quem quer que seja, venho aqui de publico
apenas expressar minha opinião quanto às coisas que vêm ocorrendo no universo
da capoeira nestes últimos anos, sem pretensão de ser o dono da verdade, de
estar certo ou errado. Cada um é dono de sua consciência e a minha diz que
devemos repensar o processo docente existente hoje na capoeira.
terça-feira, 10 de setembro de 2013
ESCOLA TRANSDISCIPLINAR AÚ CAPOEIRA
O compromisso social da escola
transdisciplinar
Por: Mestre Pop
Uma escola de capoeira transdisciplinar visa a
formação do aluno não somente enquanto capoeirista, mas como um ser humano integral.
A política pedagógica transdisciplinar contempla o conhecimento da capoeira em
sua diversidade, mas não de forma fragmentada e compartimentada. Desta forma
permite os alunos visualizarem e compreenderem o universo da capoeira como um
universo plural repleto de diversidade, e é nesta diversidade que o aluno
deverá encontrar também o seu próprio universo, buscando interagir de forma
solidária e fraterna, com os demais elementos que constituem o universo da
capoeira como um todo.
Tradicionalmente os mestres de capoeira se
utilizam de métodos disciplinares. Estes
métodos por sua lógica valorizam uma única realidade da capoeira que é a do
próprio mestre. A disciplinaridade se fecha em si mesma, reconhecendo também as
outras disciplinas, porém cria barreiras de comunicação e inter-relação, já que
se foca na sua especificidade em contraponto à especificidade do outro. Por
outro lado, a transdisciplinaridade vê o que está entre e através das
disciplinas, ou seja, o que as une e não aquilo que as separa.
A
partir do momento em que, pela reflexão e observação sensível, nos damos conta que
o papel dos mestres e grupos de capoeira na sociedade é a transformação social
e a perpetuação da cultura, este deve se dar a partir de uma perspectiva
plural, democrática e solidária, a fim de formarmos seres humanos com
habilidades distintas às que são submetidos atualmente pela visão de educação
disciplinar. Habilidades essas que atenderão à emergente necessidade de
construção ativa de um novo tipo de sociedade: mais humana, criativa, que saiba
conviver e valorizar a própria diversidade, que saiba interagir com o ambiente
natural de maneira mais responsável e sustentável.
E quais são os desafios que estão postos aos
mestres na contemporaneidade? Entender que a sociedade de hoje não é a mesma do
passado. Que a sociedade atual está cada vez mais exigente em relação a tudo:
qualidade, eficiência, resultados, não se conformando com injustiças, com
intolerância, discriminação e toda e qualquer forma de opressão.
Desta forma é necessário compreender que
aquela visão fechada, muitas vezes preconceituosa e discriminatória de um saber
para o outro, deve ceder lugar ao entendimento de que a capoeira é uma
diversidade, são muitas em uma só e que a mesma hoje ganhou proporções universais.
Desta maneira também é preciso compreendê-la de forma universalizada, especialmente
na construção dos saberes sobre a mesma, destruindo assim as fronteiras
conceituais que hoje nos separam: regional de um lado, contemporânea de outro,
angola do outro e assim por diante. A capoeira hoje não está mais
regionalizada, ou seja, na Bahia ou Rio de Janeiro, como historicamente sempre
esteve. A capoeira é um patrimônio do Brasil para o mundo e desta maneira os
paradigmas e dicotomias existentes devem aos poucos ser rompidos.
É necessário reaprender a pensar a capoeira na
atualidade até para que possamos oferecer aos iniciantes nesta prática a
oportunidade de contemplar e reconhecer que existe um horizonte para além do
horizonte de seu próprio mestre. Desta forma vamos construir uma sociedade
capoeirística solidária e fraterna, onde a cultura e os saberes em sua
diversidade são reconhecidos e acima de tudo valorizados.
FAÇA PARTE DA ESCOLA TRANSDISCIPLINAR AÚ CAPOEIRA.
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